domingo, 16 de dezembro de 2012

Fica

Pode continuar falando, vou pegar sua mão como se fizesse isso sempre, nada fora do normal. Deixa, deixa seu amigo fazer piada ridícula, ele não sabe o quanto doeu em você, eu sei, você me disse. Não me importo se ele perguntar, gosto de ver ele angustiado porque não sabe de nada. É, meu humor é mais parecido com o seu do que imaginávamos, quem diria? Parece que te conheço desde sempre, me sinto tão a vontade com você. 
Abre a porta do carro pra mim, deixa eu te achar charmoso e infinitamente o cara certo pra mim, mesmo você sendo treta, mesmo você sendo chave de cadeia e me fazendo rir disso. "Só isso?" Não, não é só isso,  pode me beijar, juro que pode, tenho certeza absoluta que isso não vai dar certo, você também sabe, mas não se preocupa comigo, seguro a onda. O mundo vai acabar em menos de vinte dias, a gente não vai se foder em tão pouco tempo, se o mundo não acabar a gente dá um jeito, "Live fast, die young" lembra? 
Não vou te cobrar nada, não sou disso e nem você, só continua me mostrando essas musicas legais e me dando suas opiniões inteligentes e bem articuladas, mas não se afasta de mim, eu continuo sendo sua amiga, independente se teve beijo ou não. Não deixa eu me sentir culpada por ter estragado nossa amizade, eu tô dizendo pra você que sou louca e você adora isso, viu? Te faço rir sempre, porque sou sincera com você. Mas não vai embora. Fica.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

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Você chegou me procurando com olhos preocupados e eu gostei, encostamos numa parede quente durante uma noite fria pra falarmos dos nossos problemas e falamos por horas, dos relacionamentos fracassados, das nossas famílias bases, apoios, dos gostos musicais, de todas as pessoas que conheço naquele lugar e você sorriu durante meu monólogo, curtiu que eu não me arrumasse toda, mas perguntou se eu havia passado lápis nos olhos, falou sobre eles quando falei que não e eu amei isso. Pude perceber que você é um observador e que gostou de me ouvir falar por horas na sua cabeça, mesmo cansado e com sono, você disse que danço bem, falou dos seus cachorros, da sua casa, da sua insonia, que não consegue dormir com barulho e ficou horrorizado porque não bebo cerveja e não gosto de cachorros. Te expliquei que gatos são mais legais porque não precisam de nós e você disse que eles nos desprezam, mas se divertiu assim mesmo, me contou sobre a força da opinião da sua mãe, de como sua irmã é sua melhor amiga e da maneira cruel como perdeu dois dos seus melhores amigos pro egoísmo e gostei de ouvir isso de você. Você não se importa se falo muito palavrão, não quer viver pra sempre, sabe que metade das coisas no mundo podem ser respondidas com "Foda-se", me apresentou musicas no carro e teve paciência comigo, riu do labirinto que é chegar a minha casa e esperou que eu descesse toda a rua pra poder ir embora, e me mostrou o quanto precisava de alguém pra encher seu ouvido com besteira durante horas quando disse que mal nos conhecíamos e você já havia falado de toda a sua vida pra mim e eu percebi o quanto isso era importante pra você.

domingo, 21 de outubro de 2012

Cajuína cristalina


Ela deslizou a mão pelo braço dele até a mão, onde estava o cigarro, encaixou o indicador e o dedo médio deixando o cigarro no meio deles e pegou-o. Já fazia duas horas que estavam sentados ali, na varanda da casa dele, olhando o mar. Tocava uma musica dentro da casa, Alice decidiu ir escolher outra e levou o cigarro junto, Henrique só balançou a cabeça em silêncio sorrindo pelo pequeno furto, ela escolheu uma musica do Caetano Veloso pra tocar e encheu um copo com o conteúdo de uma latinha de drink que tinha no frigobar.
- Vem dançar comigo essa, Lice. – chamou e ela largou o copo na bancada.
Uma mão ao redor do pescoço dele, a outra presa na mão dele. Tinham quase o mesmo tamanho e se moviam como se a vida deles fosse só fazer aquilo, como se sempre tivessem feito aquilo, todos os dias, por mais raro que fosse o contato na realidade. A mão dele segurando ela firmemente contra o corpo e levando ela passo depois de passo, a testa dele procurou a dela e ficaram dançando colados na sala. Um giro e a mão dele descobriu a barriga dela coberta pela blusa leve, um sorriso brotou nos lábios e ela se esforçou pra não sorrir também.
- O bom, é que você é leve de guiar. – provavelmente se referindo a magreza dela.
- Você é uma das poucas pessoas que diz isso, todo mundo reclama que eu quero guiar.
- Até quer, mas é fácil fazer mudar de ideia.
A falta de plateia deixava Henrique livre pra percorrer o corpo dela com a mão carinhosa e sutilmente, Alice mal teve consciência da mão dele descendo quando ele segurou sua perna em um passo e sorriu saindo quando ele procurou seus lábios, um giro solta e voltou pros braços dele. Era engraçado, porque era exatamente dessa maneira que se relacionavam, giros soltos e depois voltavam pros braços um do outro. Henrique, por pura preguiça, deixou a barba por fazer, ela achava aquilo um charme e lá estava ele com a barba no ombro dela enquanto deixava beijos delicados por onde passava. Eles não falavam muito sobre o que tinham, até porque, tecnicamente não tinham nada, mas ela estava nos braços dele hoje como só conseguia ficar com ele, tinham uma química muito forte e embora não falassem muito se entendiam facilmente. Alice rodopiou novamente pra longe do corpo dele fazendo-o ir atrás dela, finalmente o beijou. Assim, sem cerimônia, sem plateia, sem julgamentos, ela o beijou porque sentia falta de estar com ele, de estar nos braços dele, beijou porque eram amigos, namorados e porra nenhuma, beijou ele, porque era ela e ele e porque aquela podia ser a ultima vez que teriam a oportunidade de ter algo tão puro e sem cobranças como era aquilo que eles tinham.

sábado, 29 de setembro de 2012

Olhos espremidos como laranjas

"Olha, você, onde é o que o barco foi desaguar...". Eu estou vendo e você? Desaguando no meio do nada, de uma bagunça, de um não sei, não falei, não perguntei, nem quero. Desaguou aí, ó, nessa confusão que a gente arrumou. Seu sorriso espremeu seus olhos e a mim, espremeu meu coração, amor. Você viu isso?
"Larga esse celular. Não fuma." Você costumava dizer, costumava pedir, mas e se largasse ia enfiar as mãos onde? Teria que ficar o tempo inteiro grudada em você. Isso de amor sem amar, de sofrer sem se apegar, de sentir falta sem saber do que. Isso da gente, que começou do nada, acabou estranho e nós dois não temos o minimo de dignidade, ou seria vontade(?), de tocar no assunto.
Fomos tão leais aos nossos ideias que não conseguimos ser leais a nós mesmos, não consegui te dar meu coração nem motivos para que você confiasse em mim, mas você estava ali todo dia. O sorriso espremendo os olhos já bem pequenos, o abraço quente, tão quente, que agora o mundo todo tá frio, o aperto e o encaixe, quando você me abraçava e colocava esse seu sorriso todo em cima do meu ombro, com a mão apertando bem firme minha cintura. "É minha" você poderia dizer, responderia um "Sou sua" imediato, porque eu era.
Tudo o que você tinha que fazer era pedir, chamar, "Vamos ali", que eu iria. Pra serra não, como você chamou e eu disse que não iria, poderia ter ido, dado um jeito, largado tudo e ido com você. Fim de semana bem casal, ia ser hein? Sua vida e a minha, parecem essas ruas que se cruzam, se cruzaram quando eu ainda era só uma menina besta e de novo agora, ainda sou uma menina besta, mas a gente finge que não porque você sabe que não sou só isso.
Amanhã vou te ver de novo e vou agir toda adulta quando você espremer esses olhos pra sorrir pra mim e disser "Oi, amor", vou sorrir polidamente e dizer um "Oi, bonitinho" e te abraçar apertado, rezando pra você não me soltar nunca mais, depois ir embora, com o coração que não devia acelerar mais acelera, quando você espreme esses seus olhos pra sorrir pra mim.

domingo, 19 de agosto de 2012

... ainda dói em mim...


Quase nunca converso com você e quando o faço é tão rápido que nem dá tempo de perceber o que acontece biologicamente comigo. A verdade é que quase sempre nada acontece porque tudo é rápido demais.
Não hoje que fiquei tão bem com meu vestido novo, não hoje que você não me odeia mais. Hoje, vou conversar com você e fazer perguntas que quase me sufocam de curiosidade, nenhuma delas diz respeito a mim, é sobre você, tudo sobre você. Vivo negando, mas adoro você, o deboche, as piadas, a impaciência disfarçada de educação e principalmente o cinismo.
Essa noite você me deixou vulnerável e acalorada, matei minha curiosidade e ainda lembrei o que é sentir o coração bater bem forte no peito por algum motivo, por alguém-motivo. Você foi essa pessoa ótima que você é sempre e me esforcei pra não ser estúpida com você novamente, não suportaria sua decepção outra vez, aquilo quase me matou, juro.
Hoje à noite você desvendou um pouco daquele mistério que vejo em você, não de um jeito ruim, de um jeito incentivador, pra mim você tem esse mistério de pele velada, barba malfeita e cheiro suave de perfume misturado com cigarro. O cheiro que era pra grudar na minha roupa, na minha pele e principalmente no meu travesseiro, dessas noites que deveríamos ter passado juntos, fumando, rindo e bebendo catuabas como se fosse vinho, porque esse é o tipo de coisa que nós faríamos, além de ver filmes e ouvir musicas e dançar pela noite afora.
Hoje quando conversamos a única coisa que conseguia pensar era em quanto tempo todos esses empecilhos que nós dois estamos criando demorariam a cair por terra pra que eu pudesse mostrar a confusão que são todos esses sentimentos que não existem quando não te vejo, te desejo, te quero o maior bem do mundo, mas não digo isso a ninguém porque não fomos feitos pra esse tipo de coisa.

domingo, 29 de julho de 2012

É saudade, preto.


Só percebeu quanta falta sentia quando encontrou um cara que era a cópia reduzida do Preto numa balada idiota. Deu na telha de que naquela festa ridícula ela só iria querer alguém se esse alguém fosse ele (ele quem?). O Preto não estava ali, então provavelmente era a cópia, mais baixa, não tão preto e com um nariz diferente, mas magro, o sorriso era fácil também, os olhos num tom de castanho que deixavam até Alice desnorteada, ele era charmoso até onde ser charmoso permitia, tão charmoso que o mundo inteiro ficava mais charmoso perto dele, não bonito. Ser bonito é muito fácil, você nasce bonito, sua personalidade não tem nada a ver com isso, mas charme, cara... Charme era uma coisa trabalhada, não dá pra se cansar de gente charmosa, porque normalmente eles têm algo pra falar, algo pra te fazer rir, algo pra você se encantar, pessoas bonitas são bonitas e... (normalmente) só. Aquele carinha na balada fez Alice sentir uma saudade infinita do Preto, quanto amor havia nela por ele, o estilo da roupa, a maneira como se movia, o sorriso, Deus... o sorriso de dentes pequenos, era tão adorável... O pequeno Preto estava acompanhado, claro que estava, quando um homem charmoso como esse não está, não é? Preto, também anda sempre acompanhado, ainda assim lançando seus muitos sorrisos para todos os lados, borboleteando como dizem os amigos, Alice borboleteava também, mas principalmente quando ele estava envolvido, nunca soube muito bem como ou porque, mas Preto era o cara que ela mais gostava na face da Terra, gostava como amor, como amigo, como pessoa, como irmão, gostava com força. O cara da balada era tão parecido com o Preto que mesmo acompanhado, lançava a ela os sorrisos que só pessoas como eles sabem lançar, de lado, fugindo, saindo, meio discreto, escondido e Alice riu, porque aquilo tudo era divertido demais, ele era fofo e não valia um centavo, mas estava acompanhado e ela estava ali contra vontade. Sentou e não conseguiu evitar o pensamento: “Preto, que saudade!”.

sábado, 14 de julho de 2012

Fairy Tale


Você era a merda da minha alma gêmea, em tudo, no sorriso espaçado, na pinta, no olhar, nos gestos, na personalidade, eu enfrentaria o mundo por você, mesmo que o mundo fosse apenas a minha família, atravessaria o oceano no voo mais rápido só pra curar sua dorzinha no fundo do peito, daquela saudade que tava te machucando. Seria seu porto seguro, assim como você é o meu. Abriria mão dos sonhos, da riqueza, da monarquia, de tudo o que as pessoas julgassem importante, porque importante mesmo pra mim é você. Nossa casa teria a cara da gente, a cara do sorriso enviesado que eu dou quando mal humorada, combinado com o seu dom de fazer com que eu trema em qualquer decisão. Uma bandeira da Grã Bretanha presa na parede do quarto, porque por algum motivo, a Inglaterra só nos faria mais próximos. Sua prancha de surf encostada em um canto perto de uma bagunça de parafina e roupas de praia, do outro lado mil livros em cima de uma estante: arte, moda, literatura, revistas fúteis porque eu amo ler qualquer coisa.
Nossos filhos, com aquele seu cabelo e seu olhar atento, verde-sinal, prossiga, prossiga, era sempre prosseguindo, nunca pare, pense, nunca reduza... Prossiga. O menino, seu parceiro, a menina é seu xodó, um dengo só, vocês dois. Uma foto grande, emoldurada na sala, de nós dois, a foto do dia do nosso casamento, fiz questão que você usasse chinelos, assim como eu, com um vestido tão fluido que, magra como sou, por pouco o vento não levou tudo na praia aquela tarde, vestido, eu, tenda. Te amei, te amo, vou te amar, do modo mais puro e ingênuo, da mesma maneira como começou, há tantos anos atrás. O menino magricela com a bermuda caindo morrendo de vergonha de uma cueca amostra, que hoje em dia é normal, você não gostava, gostava disso em você, gosto de tudo em você, gosto mais de mim quando estou com você.
Meu coração congelou, Preto, tá congelado aqui dentro e só esse seus olhos verde-sinal é que vão dar jeito no gelo que tá aqui. Parou de tristeza, de dor, de medo de perder o olhar atento, medo de me perder numa manhã numa casa que não é a nossa, tenho tanto medo, Preto, de não ser sua desse jeito que nós dois temos que ser. Eu te amo, Preto, amo aquele menino que você era, amo esse irresponsável que você é, amo você. Pra sempre, porque com você, pra sempre ainda é pouco tempo.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Sobre Alices

Qual é a sensação de ter uma vidinha crescendo dentro de você? Como se sentem as mães adolescentes? O medo, a dor, a sensação de estar sozinha no mundo, mesmo acompanhada tão de perto. Em quem confiar? A vida prega peças engraçadas na gente. Ontem você estava com todos os remédios em dia, hoje você esqueceu e agora você tem uma vidinha ai dentro. Um serzinho tão minusculo e indefeso que você não consegue ficar vinte minutos longe sem se sentir a maior desnaturada do mundo. Semana passada você tinha certeza que ele era estéril... Agora você anda com a prova do amor de vocês nos braços. Duas situações tão cotidianas e ao mesmo tempo tão distantes das realidades. Quem acha que vai ser mãe aos dezoito anos ou aos vinte em pleno século XXI? Ninguém acha, é sempre aquilo "Ah, não vai acontecer comigo". Aconteceu.
Essas pequenas Alices fazem de nós escravinhos de seus sorrisos e desejos, tudo por elas. Noites acordadas, tenho andado com olheiras horrorosas desde que ela nasceu, mas eu a amo e amaria o triplo se fosse possível, só como porque preciso alimentá-la, mas olhar pra ela é a melhor coisa que eu faço, não canso.
Como suas mãozinhas são pequenas e frágeis, seus dedinhos tão finos e suas unhas quase como papel, seus pézinhos, vão demorar tanto a caminhar... Mas ela cresce rápido, já perdeu metade das roupas que ganhou. Eu que nunca gostei de boneca, ganhei uma que toma todo o meu tempo e eu não tenho nem condição de reclamar, a amo tanto.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Sobre Alices e abraços


Depois de anos seu abraço ainda vai continuar sendo o meu favorito, sabe por quê? Porque é um abraço que me enche, me deixa prestes a explodir de mim mesma nos seus braços, nesses braços que mesmo sem um contato periódico me envolve com tanta intimidade e sapiência como se eu fosse algo que você sempre teve bem ali ao alcance de um abraço apertado gostoso e quentinho e uma mão no cabelo. Depois do abraço sempre vem uma conversa engraçada e nada a ver sobre o tempo em que não nos vemos, como andam nossas vidas, quase sempre você vai embora rápido demais e me deixa só com vontade de você, vontade de saber da sua vida de verdade, de saber quem você tem abraçado com esse calor todo e em que cabelos você tem posto as mãos. Queria te perguntar também quando você vai por as mãos em mim novamente, como naquela noite quente e fria cheia de álcool e cigarros em que nos conhecemos, cheia de conhecimentos, de risadas, de proibições, de nós dois infringindo regras que se aplicavam a mim e deixavam você interessado. Então dessa vez você se deixou ficar e conversar e (eu fiquei chocada) e foi interrompido e voltou a mim e fui ver meus amigos e você me achou pra me dizer que era para conversarmos mais e meu coração não acelerou, nenhuma maldita vez pra dizer: “Ei, gosto de você ainda.”. Não que o queira longe, jamais algo assim, mas não te quero insuportavelmente como antes, te quero, óbvio, mas de um jeito educado e sutil, sem amor demais, porque uma princesa não pode amar ninguém mais do que a si.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Doce Carolina


Carol desenvolveu um amor todo especial por uma série de coisas que ela costumava odiar, mas como ela dizia, nascer onde ele nasceu dava a ele o direito de ter uma série de coisas que ela não gostava e mesmo assim ter o coração dela. Dos olhos azuis (e vesgos), aos cabelos muito loiros e bem cortados, calças de cores absurdas e meias que chegavam ao meio das pernas, meio gordinho também, mas além disso, muito muito além disso, ele era ele. E tinha todo aquele charme com sotaque que compensava de longe o fato de ser meio vesgo, os olhos azuis, num tom absurdamente bonito e caloroso, os cabelos loiros cortados eram tão macios e finos que dava aquela vontade absurda de passar a mão o tempo inteiro, a parte boa das calças era o fato de conseguir encontrá-lo só de ver a roupa, eram tão típicas e adoráveis nele. Fofinho como um daqueles ursos gigantes que é gostoso de abraçar e ele dava abraços apertados e seguros. Ninguém podia negar que ele era engraçado, fofo e tinha o sorriso mais delicia do mundo, sorriso de quem se diverte tentando se conter, aquela risada toda dele e de quem estivesse de frente pra ele, encarando aqueles olhos azuis tão intensos e bonitos que dava vontade de se afogar neles. Carol tinha decorado o jeitinho fofo dele de sorrir de lado pra cumprimentar as pessoas e a maneira de passar a mão direita no cabelo quando sorria, a maneira educada como dizia: “Tudo bem?” diferente de outro charmoso que ela conhecia, que não parecia querer saber mesmo se ela estava bem, com ele Carol poderia passar a vida inteira contando os problemas e as particularidades da vida e deixando ele contar as dele, uma das coisas lindas nele era a maneira como ele falava com o sotaque super carregado de quem acaba de chegar de um lugar legal, aquela dificuldade peculiar de usar o vocabulário e o mais importante de tudo, aquele jeito de quem nasceu num lugar legal e sabe, e ri disso, e sorri pro mundo e gosta do mundo, bebe o mundo como se fosse uma cerveja gelada numa festa open bar.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Sobre Alices e torcidas


E por saber que torcer pra alguma coisa acontecer não funcionava, ela aprendeu que torcer não dava certo pra ela. Todo mundo torcia e conseguia, ela não. Sempre que ela torcia pra um corredor, ele perdia, pra um time, ele perdia, torcia pelo ovo estar bom e ele estava podre, torcia até pra não chover e chovia. A menina ficou cética e ela não gostava dessas coisas que envolviam torcer, torcer era ruim pra ela, enchia ela de expectativa e depois ela desabava desolada, porque ela não tinha mais nada depois. Não gostava também daquela torcida predestinada das novelas, achava tão desesperador ter que gostar do mocinho e da mocinha e torcer para que eles ficassem juntos, “Não existe gente que é boa desse tanto, quando é que vocês vão ver que isso não existe?”, era isso que ela pensava, mas ninguém entendia também, então ela largou a novela de lado, aquilo também não era pra ela. Pra ela era gente, gente deixava ela fascinada, porque gente muda, gente não precisava de torcida, gente precisava que você gostasse ou não, sem predestinações. Ela gostava do frio na barriga quando não sabia o que esperar de alguém, sentia a tensão que era lidar com outras pessoas e era disso que ela gostava, e tinha medo, a menina morria de medo de gente na mesma intensidade que gostava, porque ela dizia que gostar de gente era difícil, porque gente as vezes muda sem dar explicação, sem dar motivo pra uma mudança que machuca e dói no fundo do estomago e do peito, dói como fome que não passa nunca e vai te incomodando, dói tanto que chora. Ela entendia chorar por gente, chorar por torcer não. Pra ela o único sentimento que dava pra ter era por outro ser vivo que muda, ela não entendia os outros sentimentos, não gostava deles e não tinha o mínimo interesse em entender ou gostar. Porque pra ela amar outro ser já era difícil demais, um amor tão doloroso e gigante que ela preferia deixar só para gente.

domingo, 15 de abril de 2012

Luiza e o amor

"Mas e amar? Você já amou?" Luiza não sabia. Achava que não, todas as amigas esqueciam do mundo quando estavam com os respectivos namorados e Luiza sempre andou muito de pé no chão, então não, ela não tinha amado ainda. Mas quando perguntavam sobre amor pra Luiza, ela sempre se lembrou de uma bermuda jeans. Amor pra Luiza era exatamente aquela bermuda jeans e tudo o que ela significava e uma simples peça de roupa significava não ter palavras pra explicar, significava ser um coração gigante prestes a gritar eu te amo para que o mundo inteiro ouvisse e sentisse junto, significava ser toda coração, porque braços e pernas são membros que ela não sabia mais pra que serviam, só estão ali para que ela foque em algo e possa não pensar no coração gigante e pulsante que vira quando vê aquela bermuda jeans. 
Luiza achava que amar era apontar cada um dos defeitos da pessoa e além de achar um charme todos eles, reconhecê-los nela mesma, era gostar, era saber, se saber uma cópia fiel do outro apesar de todas as diferenças e apontar cada uma das semelhanças como se cada uma delas fosse o motivo óbvio para amar uma bermuda jeans.